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De Olhos Sempre Abertos - vivendo o espanto - Rodolfo García Vázquez


A fumaça...

 

São seis e meia da manhã.

Depois de chamas imensas, calor, estrondos e ruídos de sirenas, que duraram pouco mais de duas horas, agora só resta fumaça.

O Teatro Cultura ARtística virou um vazio...um buraco...

Da janela de casa só se pode ver a fumaça saindo daquele buraco.

O fogo foi mais forte do que o teatro. Tudo acabou!

Da janela, só se podia sentir o calor obcecado em tudo destruir.

Agora, a temperatura voltou ao normal, a calma da manhã de domingo assumiu o controle. Sem o teatro mais tradicional de São Paulo.



Escrito por Rodolfo às 06h43
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Depois da estréia

 

Ontem voltamos com "Vestido de Noiva" para São Paulo. Que bom volta a sentir os atores com tesão, vibrando, seguros apesar de não termos feito nem mesmo um ensaio geral completo.

E hoje, vindo para o teatro, cruzo com a solitária desdentada, descompensada da Praça. No meio do som absurdo das marretas, ela resmunga:

- Estão arrebentando a parte estrutural da Praça. Não pode. Não foi licitado. Vergonha!

Em seguida, vejo o dono do cachorro de raça passeando por ali, tratando aquele entulho todo como se fosse dele. O homem fino, com seu cachorro fino, seu nariz arrogante, arrogantemente passeando no meio daquele lixo era uma imagem insólita, ridiculamente insólita.

Mais adiante, vejo a placa de inauguração da Praça. Praça Roosevelt, entregue ao público em 1970 pelo prefeito Maluf e pelo presidente Médici.

Médici? Maluf?

Médici?

Ainda deixam uma placa com o nome do Mèdici na praça do presidente americano? Estão destruindo tudo, estão reclamando de tudo, mas ninguém reclama do nome do Mèdici ali há praticamente 40 anos?

A desdentada reclama da falta de licitações, o dono esnobe do cachorro controla o entulho, mas ninguém pensa que até hoje, naquela praça, existe uma placa com referências ao presidente com um currículo de tanta tortura e tanta morte.

Vou para o escritório em passo lento, carregando comigo a boca desdentada, o cachorro de raça, o nariz arrogante e a placa do presidente Mèdici. O dia começa irreal.

Só penso que não posso parar. Um pé depois do outro. Tento não me perder no meio dessas imagens e a única coisa que me parece razoavelmente lógica em tudo isso são os meus pés, caminhando, direita, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda.

 

 



Escrito por Rodolfo às 10h33
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O Anjo

 

"Eu vi o anjo no mármore e fiquei esculpindo até que eu o libertasse da pedra."

Michelangelo



Escrito por Rodolfo às 09h21
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Outra ciranda de outros libertinos

 

A ciranda do caso Dantas:

O delegado responsável pelo caso pede afastamento.

O juiz que ordenou a prisão entra de férias.

No Pará, há suspeitas de que fazendas que estão em nome do Opportunity sejam de Lulinha.

E Salvatore Cacciola confia na Justiça brasileira, a justiça que se preocupa com as "vergonhosas" algemas dos milionários e abandona o restante do povo ao ocaso.

O país volta a ferver.

E nós, no pequeno mundo da praça Roosevelt, voltamos ao espelho distorcido da nossa cruel realidade, oferecido pelo Divino Marquês.

Ele diz que o bom libertino mantem as aparências como todos os outros cidadãos, mas na sua intimidade age apenas em função dos seus princípios: egoísmo e prazer, destruição e morte.

 

tudo tão natural.

 

 



Escrito por Rodolfo às 09h22
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Ciranda dos Libertinos

 

Ciranda dos Libertinos teve sua primeira reunião hoje.

Falamos de Sade, do processo incrível de "Filosofia na Alcova" e "120 Dias de Sodoma"...da encruzilhada que Sade nos joga: ir além das aparências, e assim entrar em contato com nossos demônios.

Falamos também da importância de Sade na nossa trajetória, das aventuras de quando Os Satyros começaram, dos tempos heróicos.

Excitação e olhares de companheirismo dentro da jornada ainda desconhecida, mas certamente mágica.



Escrito por Rodolfo às 20h59
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Tirado da Folha Online

 

Eleito quatro vezes deputado federal pelo PT de SP, Luiz Eduardo Greenhalgh, 56, foi advogado de causas humanitárias e teve sua biografia ligada à defesa dos desaparecidos durante a Ditadura Militar brasileira.

Defendeu lideranças sindicais e políticas perseguidas pela ditadura, entre elas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e participou da fundação do Comitê Brasileiro pela Anistia. Foi ainda um dos coordenadores do projeto "Brasil Nunca Mais", para denunciar os crimes da ditatura.

Membro fundador do PT, Greenhalg foi filiado de 1974 a 1980 ao MDB, partido que até então reunia a oposição civil à ditadura. Trabalhou como advogados dos jornais "O Movimento", "Em Tempo", "Versus", "Brasil Mulher", "Nós Mulheres" e "Resistência"; defendeu o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Estudou direito na faculdade do Largo São Francisco (USP) entre 1969 e 1973.

No Congresso, Greenhalgh participou da Comissão de Constituição e Justiça e dos Direitos Humanos, entre outras.

Hoje defende outro perseguido, outro injustiçado, Daniel Dantas.

(Por onde foi que nos perdemos? - pergunta o verdadeiro humanista)



Escrito por Rodolfo às 09h54
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Aventuras cubanas com a Oração

 

 

- Eu já pensei em rezar, mas não consigo, não sei...Me diz...Como é que você faz para rezar?

Disse a atriz cubana ao ator brasileiro.



Escrito por Rodolfo às 09h51
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Aventuras cubanas com o Teatro de los Sueños

 

Ao final da nossa estréia um grupo nos aguardava do lado de fora do teatro. Eram muito jovens, uns seis ou sete, com uma mulher mais velha, e queriam nos cumprimentar pelo trabalho. Eram amadores e o grupo deles se chamava TEatro de los Sueños (Teatro dos Sonhos).

A diretora dizia que os levava sempre para assistir a tudo, pois eles tinham que conhecer teatro, de todos os tipos, eram "aficionados" mas tinham ambição. A molecada parecia curiosa, ávida, intensa...mas calada. Me esqueci provisoriamente deles nos dias que se seguiram.

Na segunda feira após nossa estréia, fomos convidados pela Casa de las Americas para um encontro onde falaríamos sobre a nossa trajetória. E lá estavam eles...de novo! Ávidos, curiosos, intensos.

Ao final, fomos convidados a um cock tail e eles nos acompanharam novamente! E insistiram num convite: fariam uma homenagem ao Dia do Orgulho Gay na sexta feira seguinte, na Casa de Cultura onde ensaiavam, na periferia de Havana. Insistiram muito. De início, ignoramos o convite. Achamos estranho...um daqueles convites que sempre fazem e você faz questão de esquecer. Mas eles tinham alguma coisa diferente, não dava prá saber exatamente o quê. Talvez aquela certeza, aquele olhar confiante...era difícil identificar o que. 

Eu perguntei a vários amigos cubanos se os conheciam, se sabiam alguma coisa do grupo ou dessa Casa de Cultura. Só me diziam que era um bairro muito muito distante, e que nunca tinham ouvido falar neles. Trataram o convite como coisa esquisita, seria uma "roubada" daquelas. Amadores, iniciantes de tudo. Ficamos em dúvida se deveríamos ir ou não a esse evento, tínhamos outros convites para fazer outras coisas  (festas de atores profissionais chics em Havana, clubes, etc...).

Alguns de nós resolveram ir à festa, ainda inseguros se essa seria a melhor opção, mas já pensando numa forma de escapar caso fosse um mico. Evaldo nos acompanhou com seu incansável Bibi e a câmera (ainda bem).

Longa viagem até chegar lá. Como se estivéssemos indo para Interlagos ou depois de São Miguel...lugar distante e escuro. Era uma vila onde moravam militares, a Casa de Cultura era uma casa abandonada numa esquina e lá chegamos.

Ao entrar, umas vinte ou trintas pessoas. Eles ansiosos pela nossa chegada.

Evaldo negocia a filmagem com a diretora da Casa de Cultura, uma engenheira química que abandonou tudo para fazer trabalho cultural. Seu nome: Lyssett.

Lissett fica com receio inicialmente, mas libera a filmagem.

Então começa a cerimônia.

Eles nos convidam a sentar e distribuem papeizinhos pintados a mão com a bandeira gay e a data comemorativa. Esses papeizinhos lembravam coisas que crianças fazem na escola para os Dias dos Pais ou das Mães. Havia um clima estranhamente ingênuo naquele início de cerimônia.

Era a primeira vez que eles faziam o evento de forma oficial. No ano anterior, também tinham comemorado o Dia do Orgulho Gay, mas sob o nome de "Dia da Prevenção da Aids e de outras doenças sexualmente transmissíveis". Este era o primeiro ano em que comemoravam o Dia do Orgulho Gay de forma oficial. Então Lyssett começou seu discurso: "Espero que todos que estão aqui estejam do nosso lado e não queiram nos prejudicar. Ainda vivemos tempos difíceis." Enquanto falava, fazia sinal para a câmera do Bibi se afastar. Era óbvio o receio no ar.

Então começou o espetáculo deles. A ansiedade era geral com a nossa chegada. Eles queriam ser visíveis para alguém, nem que fossem estrangeiros que iriam abandoná-los nos próximos dias...naquele mundo anônimo cheio de regras em que vivem, eles precisavam de alguém que os entendesse de alguma forma.

Explode uma força, uma gana, uma energia, uma urgência que havia anos eu não via em teatro. Fiquei totalmente tocado por aquilo, por aquela vontade de dizer algo, algo que ainda é perigoso, por entender a força daquele teatro escondido atrás das janelas cobertas de papelão, evitando olhares alheios. Não havia iluminação, nem textos pós-dramáticos, não havia teatro colaborativo, nem figurinista premiado, a direção era amadora e os atores às vezes, exagerados...mas o teatro estava lá. O teatro total.

Em vários momentos senti vergonha. Vergonha de fazer e viver um teatro que cada vez mais se afasta das coisas essenciais, das verdades mais profundas...e se preocupa apenas com mídia, soluções estéticas e discursos acadêmicos banais. E chorei quase toda a apresentação.

Um dos meninos vai fazer parte do elenco de "Inocência" na versão cubana. Achei incrível a coincidência! Esse começa a entrar no universo profissional.

Outro, Arnaldo, tinha 16 anos! Fez Dália, o brilho da noite...uma drag emocional e intensa que, apesar das contínuas falhas no sonzinho da sala, mantinha a energia essencial intacta e digna. Inesquecível a imagem da menina operadora de som, ao lado do aparelho, segurando os fios do toca CD que teimavam em se desconectar. Tão precário e tão humano.

Ao final, levaram uma menina que tocava um tecladinho básico e nos homenageou tocando...bossa nova em português! O esforço para nos alcançar, demonstrar o seu carinho por nós, era impressionante. Provavelmente ela passou a semana inteira ensaiando e aprendendo as palavras em português. "A GArota de Ipanema" tomou prá mim outro sentido a partir desse dia.

Comemos bolo com as mãos e lavamos as mãos em um balde, numa sala sem luz. Rimos muito. Choramos.

Na nossa última noite, eles nos acompanharam a uma festa na casa do José Alonso. E falamos muito sobre a vida, bebemos, andamos pelas ruas, pegamos ônibus de madrugada, ônibus lotado de pessoas cantando músicas de uma alegria cheia de melancolia...e falamos também sobre as esperanças de um futuro incerto.

O futuro de Cuba também está nas mãos deles, na periferia de Havana...o Teatro de los Sueños!

 

 

 

 

 

 



Escrito por Rodolfo às 09h45
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Aventuras cubanas com Armando

 

Armando é um senhor de 68 anos, alto, forte, simpático e bonachão. Ele era o responsável por nos acolher na Casa de Visitas onde ficamos hospedados durante os quinze dias. A Casa de Visitas ficava justamente entre a sede do PCC (Partido Comunista Cubano) do bairro distante de Marianao e a casa de Armando.

Armando era um jovem analfabeto quando a Revolução Comunista aconteceu. Ele se uniu, desde o início, aos rebeldes contra Baptista. Aprendeu a ler e escrever, colaborou em todo o processo revolucionário do início dos anos 60. No meio da década de 60, como estudante destacado e militar ascendente,  foi enviado para a Rússia, onde estudou Defesa Nacional contra Ataques de Armas Químicas. Sempre levantei a hipótese de que ele tivesse sido treinado também pela KGB, mas ele sempre negou.

Armando fala russo fluentemente, aliás teve suas namoradas russas ("apesar de elas sempre preferirem os negros cubanos!") e foi tenente coronel responsável pela direção de uma das plantas nucleares e de defesa química de Cuba, durante todo o período da Guerra Fria, até o início dos anos 90, quando se aposentou.

Armando é absolutamente convicto da Revolução e suas frases espetaculares eram ouvidas diariamente.

"Os aviões americanos passaram anos voando sobre Havana, nos ameaçando. Os americanos sempre quiseram nosso fim."

"A democracia em Cuba existe, sempre que for a favor da Revolução, é claro."

"Esses jovens que andam fazendo baderna em Havana são pagos pelo governo americano para nos ameaçar."

"Eu já vivi nos Estados Unidos, mas aquilo não presta. Eles não tem amigos, só dinheiro."

"Nós temos que tomar conta de vocês, você nunca vai ouvir falar de um estrangeiro que tenha problemas em Cuba. Não podemos ter incidentes diplomáticos."

"Vocês não podem entrar na cozinha. E se houver um agente da CIA infiltrado entre vocês, e ele quiser envenenar a comida? Seria um caos nas Relações Internacionais. Você nunca sabe com quem está lidando, eu aprendi isso com a vida."

"Cuba está só no mundo contra o capitalismo. A China não é mais comunista."

E seu apego às regras e hierarquias era canino. Jamais tomava uma decisão com relação à nossa vida na casa sem consultar superiores.

Qualquer pedido que fizéssemos em relação ao cotidiano da casa, ele consultava seus superiores hierárquicos, que lhe davam as respostas claras e que ele seguia com toda a certeza do mundo. Tudo, absolutamente tudo, era consultado. Ele se recusava a dançar, apesar de adorar isso, pois deveria ser sério no exercício da sua função.

No final da segunda semana, um dos vizinhos da nossa rua faleceu. Teve um ataque fulminante. Armando foi o responsável por alugar um ônibus, cotizar os vizinhos, e levar todos para o seu funeral. "Era um grande amigo, não podíamos deixar de dizer adeus." Um gesto tão generoso e solidário..."tão distante do capitalismo" - essa frase ele disse com prazer e superioridade moral.

Apesar das regras, das teorias de conspiração, do dogmatismo e do apego às hierarquias, Armando era generoso e um bom papo. Foi um grande presente na nossa aventura cubana, rico e complexo como a terra em que nasceu, como todos os cubanos, como a Phedra. Aliás, adorava a Phedra e vivia cheio de curiosidades sobre ela... Ganhou até um presente dela: guaraná em pó - para dar juventude.

E por incrível que possa parecer, conseguimos entender a sua lógica e nos comunicar com ela, de forma extravagante e errática, divertida e delirante.

Ao final, me pediu discretamente, que caso eu voltasse a Cuba, se seria possível levar Viagra para ele. "As coisas não andam bem como antigamente." Para nos agradar, no último dia, ele deixou os ares condicionados ligados além do horário estabelecido pelas normas da casa. Numa clara afronta às regras que ele tanto defendera, ele quis nos mostrar o seu afeto, mesmo correndo riscos.

Sem ele, Cuba teria sido menos Cuba para nós...

 

 



Escrito por Rodolfo às 18h55
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Aventuras cubanas com Phedra - 3

 

Phedra se posta na entrada da sala. Mas Evaldo, nosso amigo e documentarista incansável, resolve tomar as rédeas do real prá poder levá-la para a ficção: "Prá luz, Phedra, prá luz!"

Ele a empurra para o centro, onde há luz suficiente para a gravação. Ela continua tremendo de emoção, e nem nota o empurrão estratégico.

- Canta uma das canções que você aprendeu nessa sala, há 50 anos! - alguém diz.

Ela se põe a cantar canções que tocam todos os garçons e cozinheiros cubanos, coisas que elas tinham ouvido como reminiscências de um passado distante. Aplaudem a cada nova frase musical...

Ao final de cinco ou seis canções, abraça emocionada o garçom que lhe havia aberto a porta mágica.

- Se não fosse por você, eu não teria voltado aqui. Gracias! Gracias!

Evaldo, implacável em seus objetivos, dita:

- Pro palco, Phedra!

Ela sobe ao palco todo empoeirado. As cortinas de veludo vermelhas ainda guardam algum vestígio do glamour burguês de 50 anos atrás. Ela fala das figurações que fez, ainda menino, para as companhias e grandes nomes do teatro cubano e espanhol. Fala das aulas que teve.

Ao descer do palco é aplaudida com entusiasmo doido. E Ivam Cabral dispara, sem perceber, diante da câmera:

- Meu Deus! Estou num filme de Almodóvar! Estou num filme do Almodóvar!

Todo mundo ri e chora - e tenta entender o que ela sente, ninguém consegue acreditar que tínhamos caído naquele local por acaso. No meio de centenas de paladares de Havana - tinhamos que ir para aquele. No meio de tantos garçons - tínhamos que conversar com aquele. No meio de tantas frases desconexas de álcool - Phedra tinha que dizer o que disse. E a porta mágica tinha que ser aberta.

Era destino dela, e de Phedra.

 Ao sairmos, nos despedimos de todos os garços e cozinheiros como se tivéssemos todos recebido do destino um presente inesquecível. O dia em que Phedra entrou pela porta da sua adolescência.

 

 



Escrito por Rodolfo às 23h04
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Aventuras cubanas com Phedra - 2

 

Após três dias de Havana, decidimos jantar em algum lugar diferente. Tínhamos ouvido falar dos paladares e decidimos ir a um. Pedimos ao nosso guia, Gil,um homossexual reprimido e deliciosamente divertido, que nos indicasse um bom local.

Chegamos ao paladar. Era de um cubano piloto de aviões que trabalhara no Canadá e voltara a sua Cuba natal como milionário, para os padrões locais. Sentamos, pedimos uma comida deliciosa (e como são boas e baratas as lagostas cubanas!). Começamos a beber e ríamos muito. Afinal, estávamos relaxando após os primeiros dias de choque com a realidade local.

Todo mundo na mesa começa a pedir para Phedra cantar alguma coisa para nós. Afinal, ela está em Cuba, está se divertindo, estamos relaxados e já estávamos razoavelmente adaptados ao Caribe comunista. Ela faz um pouco de charme, mas após alguns longos 3 segundos de insistência, ela aceita o convite, se levanta e faz um pequeno discurso.

Os garçons, que até então conversavam com ela sobre os artistas cubanos de antigamente e se divertiam com ela, chamam as pessoas da cozinha. O paladar está vazio, então o seu público somos nós do Satyros e o pessoal da cozinha e os garçons...mas ela transforma aquilo no palco de sua vida, num grande evento. Seria a primeira apresentação dela em Cuba e não poderia perder a oportunidade.

O discurso é de uma diva voltando ao seu país. Bibi corre para pegar a câmera. "Sinto grande orgulho de voltar ao meu país, depois de 54 anos. Vou dedicar esta canção aos meus amigos dos Satyros e a vocês, meu querido povo cubano!" O "vocês" são os garçons e os cozinheiros, mas para nós, era como se as multidões de Fidel estivéssem todas ali empunhando a bandeira da tolerância.

Ela escolhe canções antigas, canções de uma Cuba que se apagou e insiste em permanecer viva na sua memória.

Todos nos encantamos e existe uma comoção no ar. Os garçons sorriem felizes, inclusive o garçom Alfredo (que fará parte da nossa história cubana nos dias seguintes). As cozinheiras se encantam e aplaudem muito.

Após uma seleção musical na linha "The best of Cuba in the 50's", Phedra se senta. E todos continuamos a rir e delirar.

Então, casualmente, ela menciona ao garçom que começou seus estudo em um local perto dali, na Sociedad Artistica Gallega.

- Mas a Sociedade Gallega é aqui! - o garçom encantado responde.

- Como assim? - ela responde.

- Sim...é aqui.

- Não...você está brincando comigo.

- Naquela porta!

Ela se levanta tremendo, anda alguns passos, passa pela porta do restaurante, e se defronta com uma outra portinha ao lado. Um túnel do tempo de 54 anos se abre nos 2,5 metros que a separam dessa nova porta - é a porta mágica. Ela entra, completamente transtornada. A câmara de vídeo atrás dela, os atores, as câmeras, os garçons, os cozinheiros, Evaldo, todos nós atrás dela...Todos a seguem tentando entender a porta mágica...

O garçom abre a porta. Ela entra. A voz quase não sai da sua boca, os olhos revistam todo o lugar com um deslumbramento descomunal, pelos detalhes do salão abandonado, as cortinas de veludo antigo e empoeirado, o piso desfeito, a pintura descascada de algo que já foi elegante e fino. No fiapo de som que sai da sua garganta, todos conseguimos ouvir:

- Foi aqui! Foi aqui! Foi aqui!

E desata a chorar um choro inalcançável. O choro que tanto esperamos na chegada, aconteceu noutro momento.

 

 

 

 

 



Escrito por Rodolfo às 08h53
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Aventuras cubanas com Phedra - 1

 

A chegada da Phedra a Cuba estava cercada por muita expectativa. Todos nós especulávamos como ela iria reagir, pensávamos que ela precisaria tomar algum calmante antes de descer do avião, que talvez não fosse aguentar o tamanho da emoção que a assolaria. O avião pára e começamos a pegar as coisas para descer. Todos se organizam para a sua chegada. Evaldo e Bibi pegam os equipamentos, Audrey, jornalista da Folha, com máquina fotográfica na mão e pronta prá disparar; atores com mais máquinas. Passando pelo finger, ela parecia uma atriz holywoodiana vinda dos anos 40, cercada de fotógrafos, com aqueles óculos escuros, a blusa transparente meio puída mas ainda sexy, o cabelo misturado à peruca antiga fazendo um efeito bicolor engraçado e deliciosamente kitsch.

Ela reclama: "Que calor!" e continua pelo corredor, absolutamente indiferente. Absolutamente nada aconteceu. Os funcionários do aeroporto se esforçam por reconhecer a diva indiferente. Nenhuma lágrima, nenhuma emoção mundana, nem de dor nem de alegria. A ansiedade era tanta que nada poderia fazê-la se emocionar com  o fato de ela voltar a sua terra natal depois de meia década. Ao chegar ao aeroporto, uma agente da alfândega nos espera e diz: "sr. Rodolfo e sra. Phedra, por favor me acompanhem! vamos passar pela área VIP!". Eu a acompanho com um sentimento de espanto - sinceramente não esperava distinção tão grande - e espero finalmente que alguma emoção excepcional passe pelo seu rosto. Apesar de seu passaporte dizer outro nome, ela foi tratada pelo nome que escolheu para si!!! E como esse nome lhe custou tanto durante todos esses anos? Voltava para a mãe que a pariu (e de certa forma a desprezou) e esta a chamava de Phedra!!!! Existiria maior emoção que essa? Nem o programa do Faustão poderia imaginar efeito melodramático mais imponente do que este. Mesmo assim, nada acontece. Ela se mantem impavidamente diva, e reage como se nada estivesse acontecendo e nem a afetasse...era Phedra, a diva, de volta.

Aquela chegada indiferente e posada para câmeras, cheia de cerimônias oficiais, mal poderia indicar tudo o que passaríamos nos dias seguintes, o turbilhão de sensações e vivências, tudo o que aconteceu com a Phedra humana nos dias seguintes. Mal imaginávamos o que viria pela frente...

 



Escrito por Rodolfo às 08h40
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O retorno de Cuba...

 

Após 15 dias, estamos de volta ao Brasil. As casas, as ruas, as pessoas no Brasil já não parecem mais as mesmas.

Após uma convulsão de sensibilidades, realidades, biografias, odores e paixões, nunca se volta igual. A vida adquire novos contornos e os sonhos também.

Aos poucos eu vou me reencaixando nesse mundo, tentando entender o que vivemos.

Cuba foi a grande experiência de mundo que nos faltava. Através de Cuba, entendemos um pouco mais de nós mesmos. Através de Cuba, um espelho gigantesco.

Estamos em choque, apaixonados pela ilha do Caribe, felizes de termos vivido tudo aquilo...e com uma leve sensação de amargor.

 



Escrito por Rodolfo às 15h59
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Outras viagens comunistas...

 

Dando uma entrevista a um órgão de imprensa cubano, me lembrei de outra viagem louca, de Kiev, Ucrânia.

Entramos no país sem dinheiro, deixamos nossos passaportes no local onde estávamos hospedados, a Casa de Veraneio das Lideranças do Partido Comunista.

Corredores amplos e limpos, quartos imensos, tvs da década de 50, branco e preto, passando novelas brasileiras com um locutor em ucraniano fazendo a tradução por cima. Ouvia a voz singular da Lucélia Santos, do Grande Otelo, por baixo, e por cima, vinha aquele locutor com tom oficial, traduzindo.

A sensação de desproteção, de estar rodeado por um Estado poderoso e absolutamente indiferente ao indivíduo, era o que mais me chocava naquele país.

Um dia, eu, Ivam e Dimi fomos andar em volta de um lago congelado pelo frio...Chegamos e vimos dois meninos brincando com uma prancha de madeira, escorregando pela neve.

Nós 3, adultos, fazíamos um boneco de neve e nos divertíamos muito e víamos os meninos que brincavam, mas não eram vivos, pareciam robôs. Os rostos vazios, melancólicos, perdidos, enquanto os corpos brincavam.

A gente se aproximou e pediu a prancha emprestada, felizes também queríamos brincar. E os rostos dos meninos permaneceram vazios...o niilismo infantil, uma imagem que eu imaginei que jamais veria, estava ali diante de nós. Escorregamos na prancha deles e em seguida destruímos o nosso boneco de neve, brincando. Fomos embora como crianças e eu seria incapaz hoje de me lembrar dos detalhes daquele lago ou daquelas brincadeiras...mas aqueles dois rostos ficaram como imagens eternas.

 



Escrito por Rodolfo às 10h28
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A Estátua da Liberdade Cubana

 

Talvez a ação mais política dessa viagem a Cuba seja a ida de Phedra d. Córdoba.

Ela é a verdadeira estátua da Liberdade do século XXI.  

Não será transportada de navio durante semanas, como aconteceu quando os franceses deram o seu presente gigantesco aos americanos.

Será transportada em um assento pequeno e desconfortável pela COPA, com escala no Panamá.

A nossa Estátua da Liberdade, que será oferecida a Cuba esta semana, está cheia de silicone da década de 70, já todo empedrado, o que a transforma em uma estátua maciça e resistente - resistente a qualquer intempérie. Sua hérnia está descansando e não deve incomodá-la. Sua tosse de cigarro também não causará estragos na paisagem caribenha.

Semana passada ela disse a um amigo deslumbrado, como é que ela não ficava feliz com a atenção dos cineastas e da imprensa:

- Meu filho, já sofri tanto nessa vida que não me deixo levar por nenhum galanteio.

Sábia a Estátua Havanesa. Quem sofreu demais não se deixa levar pela vaidade comezinha. O prazer das homenagens vem como pequenas doses de um licor saboroso. Nunca se ouviu falar de alguém que tenha dado a vida por uma dose de licor. Mas é delicioso ter esse privilégio...é assim que pensa nossa estátua rumbeira.

Nem em sonhos, nos tempos em que vivia como cortesã e fazia shows em saunas gays decadentes para poder comprar algo de comer, ela poderia imaginar a reviravolta de sua vida.

Nem em sonhos, nos tempos del "doidón del Fidel" (palavras de Phedra), se poderia imaginar uma transexual cubana imigrada ser convidada a se apresentar em sua terra natal pelo Ministério da Cultura de Cuba.

Como diria o outro doidón do lado de cá: "Nunca antes nesse mundo!"

Seus irmãos, seus pais, todos mortos...talvez um sobrinho que ainda estaria morando na casa da sua infância.

Ela me pediu, com gentileza, que eu a acompanhasse nesses lugares. E eu senti não como um favor que eu estaria fazendo, mas um privilégio tão especial que me foi concedido, tão saboroso quanto o melhor dos licores.

No fundo, no fundo, se nós formos lá no mais escondido de toda essa história, esta viagem é por ela, por sua história.

Há dois meses estamos ensaiando, trabalhando muito, sem nenhum tipo de apoio, simplesmente para realizar um sonho - afinal todo mundo ama um happy end, nem que seja provisório, torto e capenga.

 

 

 

 



Escrito por Rodolfo às 12h52
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